quarta-feira, 3 de março de 2010

Santo Domingo de La Calzada-Belorado

27/04/09

Estava escuro ainda quando me levantei bem cedo...no alojamento as diferentes nacionalidades  se misturavam num imenso contraste.

Rumores sobre a gripe suína deixaram as pessoas preocupadas com aquela aglomeração mundial.

Ali também havia a "rádio peregrino" como a nossa brasileira "rádio peão" ...as notícias se alastravam rapidamente.

Pude presenciar algumas poucas e bobas  atitudes de arrogância...falta de humildade...soberba...egoísmo...pouca solidariedade ...ignorância.

Não era esse o propósito do Caminho mas parece que pessoas muito próximas...num pequeno espaço físico e em situações de estresse podem se comportar de maneira pouco educada...ponto negativo.


Descobri que meu vizinho de beliche era mexicano...Juan disse-me "Leila minha irmã é chefe de um hospital em Ciudad del Mexico mas não fique preocupada porque saí de lá antes da epidemia...não contaminei você não!".


Uma médica infectologista de Madri dizia que o maior problema do Caminho era essa junção de pessoas em ambientes pouco arejados...facilidade para doenças e infecções.

A Ermita de 1917 estava fechada...não eram seis e meia da manhã. 


Enquanto passávamos pela ponte  de 148 metros e 16 arcos ouvi alguns dizendo que abandonariam a peregrinação...tinham medo...fariam o caminho em outra época.

Para os europeus era fácil...eles estavam bem próximos da Espanha.
Muitos percorriam os trechos em etapas...a cada ano retornavam...retomavam a caminhada de onde haviam parado.  

A belíssima ponte de Santo Domingo foi iniciada no século XI, ampliada no século XVIII e restaurada  no século XX...era verdadeiramente uma admirável obra da arquitetura antiga. 
 

Para enfrentar tantas oscilações de temperatura era preciso estar com a imunidade alta...eu havia cuidado disso na minha preparação.


Todas as noites espirrava própolis na garganta e lavava as narinas com soro fisiológico...não iria desistir...não pela gripe suína! 


A manhã embora fria estava agradável e clara...o cheiro de combustível era forte...o calor do motor mais a fumaça quase me sufocaram quando ultrapassei o trator.

O motorista me fez um gesto solidário de carinho e força...não satisfeito também buzinou...quase me deixou surda! 


A Cordilheira Cantábrica continuava comigo à direita...eu não estava sozinha!


Quando deitava à noite  o cansaço era tamanho que eu pensava..."amanhã não vou dar um passo...".

Entretanto tanta gente estava torcendo por mim...tantos haviam me pedido orações...eu carregava tantos pedidos...que acordava animada e energizada...outro encantamento do Caminho.


Colocava pedidos e pessoas  na mochila e tranquilamente continuava.
Nem por um segundo pensei em desistir do meu projeto-desafio.

Esse meu relato também é para vocês...companheiros de caminhada em pensamento...obrigada pela força queridos!


Era tanta beleza...a natureza era abrangente e inclusiva... a cada dia ela me preenchia com mais  vigor...eu estava aberta e me deliciava com isso. 


Passei por Grañon...a última vila da província de La Rioja.


Entrava agora na província de Burgos...em Redecilla del Camino existe essa linda pia batismal românica com inscrições bizantinas...imaginei quantos batizados ela já havia presenciado.


Passei por Viloria de Rioja onde há um albergue brasileiro...pude usar o banheiro...muito atenciosos os proprietários Acacio e Orieta ajudaram-me a ajustar a mochila...eu estava mais magra. Obrigada! 

Morta de frio cheguei a Belorado...a francesa Christianne de SJPP estava lá...gente finíssima...que delícia de reencontro!

Saímos tomar um chocolate  e fui comprar um agasalho mais quente...ela foi comigo estranhando meu frio..."Estamos na primavera Leila".

O relógio da Iglesia de San Pedro marcava 17 horas...nem consegui assistir à missa para os peregrinos na igreja toda de pedra...estava realmente frio...10 graus.


No refúgio "privé" Caminante  fiquei ilhada no quarto...sentia-me uma mesa de centro.

Meu beliche era no meio de tudo...o banheiro minúsculo...faltava água...os ruídos e odores da intimidade humana foram inesquecíveis.

Para compensar...comi ali uma da melhores ceias do caminho...a cozinheira era ótima..."paella, ensalata, carne de cerdo, pan, vino e iogur de fresa"...outra lição...sempre há um lado bom quando tudo parece ruim.

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