segunda-feira, 29 de março de 2010

Terradillos de Los Templarios-El Burgo Ranero

04/05/09

Chequei todos os meus pertences e fui tomar  café...a hospitaleira piscou para mim com ar de  cumplicidade..."Dormiste bien?"..."Si muy bien, gracias e adiós!".

A Iglesia de Terradillos de Los Templarios estava "cierrada".  


A região da "Meseta"  foi uma das etapas mais difíceis do caminho no aspecto emocional...a monotonia da paisagem provocava um estado de transe quase hipnótico.


Passei por Moratinos...a Iglesia de Santo Tomás de Aquino também estava "cierrada".


Os únicos sons ouvidos eram os dos bastões em compassos lentos..."toc...toc...toc...toc"...os das pisadas...mais rápidos..."cháchácháchá".


A calmaria do perfil  do solo permitia profundos mergulhos nos cantos mais escondidos de nossas mentes e corações...sem limites...fazer isso nunca foi fácil...ainda mais ali.

Fazia uma honesta auto-avaliação...sem generosidade...também sem crítica excessiva...na medida certa...grandes conversas comigo mesma.


Por isso penso que o caminho deve ser sempre feito só...certificava-me de que possuímos de verdade mesmo...só aquilo que damos de nós.

Passei por San Nicolás del Real Camino.


Não havia como se perder...era tudo igual...perdia-se a emoção do que viria depois da árvore...depois da curva...depois da subida. 


Em longas conversas com algumas pessoas descobri que o Caminho era indicado por psiquiatras e terapeutas da mente para tratamento de espinhosos casos de depressão.


Fazia  muito sentido...cenários belíssimos...exercício físico intenso...produção de endorfina e adrenalina diariamente em grandes quantidades...daria uma boa mexida nos neurônios e suas sinapses...poderia melhorar muito e até curar o sofrimento da alma.  


Chegava a Sahagún considerada o centro do Caminho de Santiago...nesse marco meu coração bateu mais forte..."tô cada vez mais perto...será que vai dar?".


Passei pelas ruínas do Monastério e do Campanário de San Benito...o Arco sob o qual passava a estrada N-120...e a Torre del Reloj...ambos declarados Bens de Interesse Cultural.


Passei devagar por mais uma linda Puente Romana...mas não parei.


Ultreya tem origem latina...era muito usada nos tempos medievais... significava alguma coisa parecida com "para frente sem desistir".

Eu não pensava em desistir mesmo...só não sabia se chegaria a Santiago no "meu tempo de 40 dias"...a passagem de volta estava comprada.


Um lago margeava a trilha...refrescava um pouco a temperatura.


Aonde é que eu iria fazer o "número um?"...para os homens era tudo sempre mais fácil.

Nenhuma moita...quanto mais banheiro...foi ali mesmo atrás daquela árvore...minha primeira vez em contato com a natureza depois de "grande"...as coxas e  panturrilhas estavam fortes...saí-me bem...rapidinho resolvi tudo!


Passei por Bercianos del Camino e sua Ermita de Nuestra Señora do século XVII. 


Transformaram uma antiquíssima via romana em uma calçada para peregrinos com árvores plantadas distantes dois metros umas das outras...talvez antes houvesse mais charme no caminho trilhado por bigas e andarilhos romanos.



Mais um marco triste de morte de  peregrino pelas trilhas "jacobeas"...era possível sim.

Algumas pessoas sentiam-se mal...tinham pressão alta...disfunção cardíaca...insolação...tendinite...diarréia...febre...vômito...fratura.
Isso sem falar das bolhas e dos joelhos.

Eu estava ótima...feliz...com os pés cascudos e os cabelos desbotados...minhas quatro bolhas iam e voltavam...mãos e joelhos chateavam. 


Cheguei ao "pueblo"  El Burgo Ranero...no albergue muita tosse...havia uma francesa com pneumonia...procurei uma pensão.


Comprei meu lanche do dia seguinte...chocolate e mel para energia rápida...tinha pão e frutos secos...água pesava...só dava para carregar isso.


Desci mancando dois lances de escada e fui comer o Menu do Peregrino por 9 euros...podia-se escolher uma opção do "primero plato" uma do "segundo plato" e um "postre"...apesar de simples eram até bem nutritivos...peregrino não podia repetir...às vezes quebravam-se essas regras...e era uma grande alegria.


Fiz meus cálculos...mais 32 quilômetros...eu estava ficando boa naquilo!

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