sábado, 17 de abril de 2010

Hospital de Órbigo-Astorga

08/05/09

Noite péssima...febre...antitérmico...estrada...olhei para trás...a Iglesia de San Juan Bautista despediu-se.


Um casal de agricultores trabalhava concentrado...ela fazia críticas ao companheiro...em espanhol soava muito autoritária...dei risada.


A senhorinha varria com muita força...fazíamos o mesmo em nossos corações...jogávamos fora muitas bobagens do cotidiano...isso era bom.


A única habitante interessada em peregrinos veio ao meu encontro...tinha o hálito quente e a língua grossa...mansamente lambeu-me as mãos...um alento.

 

Passaram dois brasileiros de bicicleta...Rio Grande do Norte e Espírito Santo...tinham pressa..."por quê?...para quê?". 

Um descanso bem vindo à sombra da oliveira...eu nunca tinha pressa...desfrutava de tudo...absorvia todas as belezas...assimilava lentamente  todas as lições.


Buzinas me despertaram...companheiros alegres me animaram..."go foward  Brazil!"...eram sul-africanos.


Trecho árido e seco...a gripe desanimava...dia difícil...a cabeça mandava no meu corpo...ele já tinha entregado os pontos...estava no piloto automático.


Um bosque diferente...árvores secas e branquinhas formavam um túnel de boas energias...a mãe natureza se encarregava de animar-me.


Sozinha cheguei à encruzilhada no meio da mata...três caminhos...nenhum sinal...e agora...por onde?



Como na vida...na dúvida...pense...avance com cautela...a resposta viria...um pouco mais à frente...havia um sinal no chão. 


Mais um descanso...deitei com a cabeça na mochila...fiquei ali...que delícia! 


San Toribio era nobre espanhol...formado em direito em Salamanca...evangelizou no Peru...foi grande defensor dos índios.

Como viveria um participante da Inquisição no Novo Mundo ?

Há uma lenda que diz que antes de morrer recebeu a comunhão numa taba indígena...cercado por seus protegidos. 

Essa cruz no Caminho é em sua homenagem.



Uma descida de matar...escorregava...de cimento e pedras não permitia fincar os bastões como nos solos de terra...judiava da coluna...das mãos...dos joelhos.


Entre tantas coisas antigas uma arquitetura atual...contemporânea...devia ser muito agradável viver ali.


Em Santibañez de Valdeglesias um "rally" de carros antigos...alegria...buzinaço com ronco de anos 30.


"Buen Camino peregrina!"...olhei para trás...vinha da janela.


Finalmente Astorga...estava com febre...não queria ficar em albergue.


Passei pelas muralhas romanas enquanto procurava uma pensão...precisava descansar...sozinha...em silêncio.


Andei muito...não encontrava nada nas ruelas escondidas entre ladeiras...meu senso de direção sempre tão bom estava lento...me perdi.


O dono da pensão era ótimo...sua esposa nem tanto...a filha psicóloga dizia que a mãe tinha ciúmes das peregrinas...chorava  e reclamava quando hospedavam mulheres.


Na  Plaza Mayor  bonequinhos lá no alto da Casa Consistorial  dançavam a cada hora cheia...representavam os "maragatos"...habitantes típicos da região. 


O Palácio Episcopal de Gaudí abrigava um "Museo de Los Caminos" e da história romana na Espanha...proibiam fotos do interior.


Enquanto olhava o mapa da cidade  meus óculos caíram numas escavações de ruínas romanas...o pintor Daniel gentilíssimo desceu uns quinze metros...dando risada do meu susto me devolveu o acessório..."pense em mim na caminhada!"...mais um na lista.


O "cocido maragato" é típico de Astorga...levava sete carnes, verduras e grão de bico...preferi comer "pizza y vino" na Plaza Mayor...e "mantecadas"...doces típicos de Astorga...parecidos aos bem-casados.


Dormi pensando que nos últimos dias minha única preocupação havia sido...não passar fome...frio...sede...ter um leito para descansar...não me perder...seguir sempre em frente...compartilhar...nenhuma mordomia...só o básico...e isso era bom!

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