terça-feira, 11 de maio de 2010

Ruitélan- Fonfria

14/05/09

Iniciava a subida...a Galícia nos aguardava...era a última das províncias do Caminho de Santiago...deixávamos as terras leonesas.


Sentia-me leve sem a mochila...só os bastões...o lanche num saquinho...a câmera...muita disposição.
Seria preciso...o dia seria de doer!


Vinte e três quilômetros de subida...num cenário bucólico...encantador.


Havia decidido ir pelas montanhas...isso tinha um preço...como tudo nessa vida...a chuva desabou...deslizávamos no barro.


Passo a passo os  dias passavam...nos esvaziávamos de  cargas gigantescas...de coisas que ali...não faziam o menor sentido.


Exigimos muito de nós mesmos...nos pressionamos com horários...posicionamentos...atitudes.

Se permitirmos...esses caminhos serão sempre desgastantes.

Ali...aprendíamos a relativizar tudo isso...estresse...só na medida exata...se fosse muito necessário. 


Como seria morar ali?...viver na Galícia?...desfrutar daquela beleza estonteante diariamente?


Olhei para trás...curvas e mais curvas...barrentas...todas já ultrapassadas...magnífica a vista...o peito queimava...muito esforço.


De repente...sem aviso...depois da curva...o Cebreiro...aldeia lendária do século IX  com suas "pallozas"...casinhas ovais pré-romanas...de pedras...tetos de palha...da época celta.


Mais uma lenda do Caminho...os sinos tocavam na Idade Média  para orientar os peregrinos em meio à  névoa...era o ano 1300.


Num dia de chuva e densa cerração...um aldeão subiu a montanha...o padre praguejou...teria que rezar para o louco que enfrentara  o mau tempo...estaria assim o dia?  


Nessa hora o milagre da transformação do vinho em sangue aconteceu...aqui...o Santo Graal da Espanha...linda história.

Não visitei a igreja...não parei...estava tudo fechado...ventava demais...quase caí...estava encharcada...precisava chegar a Fonfria...minha mochila estaria lá.


Se duendes e fadas existissem ali poderia ser sua morada...parecia estar num conto de fadas...no bosque que povoava meus sonhos de infância...a névoa envolvia meu corpo...magicamente.


Eu amassaria muita lama até chegar lá embaixo...sem mochila o caminhar era leve...respirava profundamente...gritei meu nome...o eco respondeu...pensei rindo...quem disse que eu estava sem companhia?


Parei numa estalagem em Hospital de La Condesa...a capa encharcada secou próxima à lareira...aqueci meu corpo com "café con leche"...comprei chocolate...o casal de americanos estava lá...ela vibrava com meu desempenho "alone"...achei graça.


Mais  subida...cerração forte...granizo...chuva...frio...queria sol escaldante.


Chegava ao Alto de San Roque...1270 metros...literalmente estava nas alturas...o monumento ao peregrino falava por si...ventava muito.


Ainda não havia comido...parei num "pueblo"...faminta comi "tortilla con pan y vino". 

Pessoas queridas reencontradas...felizes nos abraçamos...estavam lá...a coreana Chun Yoo...a sueca Karin...o brasileiro Rômulo.
Eram jovens...alegres...animados...dispostos...bons amigos.


Ásia...América...Europa...nessa  combinação feminina...eu era a mais velha...elas poderiam ser minhas filhas.

Mãos  queimadas pelo sol...pareciam luvas marrons no contraste com meus braços.


Mais subida...Alto do Poio...1335 metros de altitude...que cenário!

Preenchia espaços  no meu coração...com beleza e simplicidade...compactava tudo em compartimentos de energia...para sempre.


Minha mochila estava lá...no Albergue Reboleira...a hospitaleira galega me recebeu com imensa alegria...adorava brasileiros.

Angela gostava de "bailar"...ensaiamos alguns passos...era incansável...fazia tudo...cozinhava...recebia...cuidava...encantava.

Fui a última...contei umas 35 camas...era "mucho para mi"...decidi que dali em diante ficaria sozinha...paguei 25 euros pela "suíte nupcial"...ótima. 


Naquela mesa imensa seria preciso uma tradutora...ajudei-a a servir a ceia...recompensa...minha porção de "vino y postre"  foi maior.



Fui dormir na cama  larga...lençol cheiroso...travesseiro grande...macio...cobertor...isso era  FELICIDADE!

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